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Neuromancer
Willian Gibson foi, sob muitos aspectos, inovador e intenso. Embora seja fruto direto de uma literatura alternativa de alguns autores que o antecederam, tendo forte influência de Blade Runner (1982, de Philip K. Dick) seu romance de estréia é o gancho que nos leva a mergulhar na realidade virtual, tão glamurosamente explorada nesse início de milênio. Enxergando muito longe, Gibson alcança a suprema condensação de conceitos pós-apocalípticos previstos por diversos filósofos da era moderna. A sintetização das acrópoles é o exemplo perfeito disto.
Usando o termo “matrix” pela primeira vez, vemos grandes similaridades entre esta obra e o filme que leva este nome. O protagonista, Case, é um hacker do futuro e cai entre o estereótipo de anti-herói e salvador, assim como o também hacker Neo da trilogia Matrix.
Deixando comparações de lado, vemos no livro o fiel retrato dos desejos mais profundos da humanidade sendo realizados em troca de dinheiro. O mundo é movido pelos piores sentimentos da natureza humana: vaidade, orgulho, ganância e traição. Lembra um clima caótico, tipicamente urbano, onde a junção destas características dá o exato teor que busca o termo cybercultura, que se tornou popular nos anos 80. Em tudo há um brilho de sofisticação automatizada, e tudo se consegue ingerindo uma pílula ou encaixando um microchip nas orelhas. Não é preciso sentir dor nem ser feio. Redenção e beleza são adquiridas como remédios em farmácias, expostas em vitrines nas ruas.
O distanciamento dos hackers para a Matrix contrasta radicalmente com o mundo real, onde tudo gira em torno da aparência física. Na realidade virtual o que vale é a sua inteligência e a capacidade de seus softwares. Com a linguagem rápida, impecável, não saímos do ritmo frenético onde a história se desenrola. É como se o tom das palavras nos enviasse diretamente a Chiba City ou ao Sprawl – lugares-chaves do romance, onde é possível encontrar uma clinica de cirurgia plástica e um bar que vende drogas personalizadas a cada esquina.
A decadência da vida humana na Terra e no espaço, frente a evolução da Inteligência Artificial, deixa muitas vezes os sentimentos em segundo plano durante a narração, mas isso é mera ilusão. Toda a movimentação informatizada do livro serve aos caprichos de humanos ressentidos e em busca de uma razão para sua existência em um mundo tão desprezível. Em contrapartida, há uma passagem em que nos deparamos com uma cultura essencialmente humana e calorosa, uma legião de humanos rastafari que habitam a Lua e vivem em harmonia com a sua natureza. Seus corpos conservam os últimos DNA humanos puros, sem a intervenção de nenhum tipo de substância ou procedimento cirúrgico, e eles estão sempre “na paz de Jah”. Curiosamente, são eles também ótimos pilotos de aeronaves, não deixando de fazer uma estranha combinação de tecnologia e superstição, uma espécie de suspiro redentor entre o caos do espaço.
A única falha aparente neste romance é a inserção de personagens no meio da ação, sem maiores explicações. Isso é concertado na última edição brasileira, com notas de rodapé que também explicam alguns termos pouco usuais – como AI, deck, RAM, ROM -, mas em algumas ocasiões isso tira o ritmo da narração. O jorro de informações pode assustar um leitor desavisado e inexperiente, ou extasiar um grande leitor de ficção, bem como interessados em caotizar idéias e odiar o mundo atual do jeito que está.
Neuromancer com certeza é romance dos profissionais da segurança de dados, e a menina-dos-olhos da cultura cyberpunk.
por Garota Coca-Cola